07/02/2013

agradecimento

A todos que leram, comentaram e que tive o prazer de conhecer, especialmente o Henrique.
Este blog fica por aqui.




Well, the smart money's on Harlow
and the moon is in the street
the shadow boys are breaking all the laws
and you're east of East St. Louis
and the wind is making speeches
and the rain sounds like a round of applause
Napoleon is weeping in the Carnival saloon
his invisible fiance is in the mirror
the band is going home
it's raining hammers, it's raining nails
yes, it's true, there's nothing left for him down here
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
that you love
And it's Time Time Time
And they all pretend they're orphans
and their memory's like a train
you can see it getting smaller as it pulls away
and the things you can't remmeber
tell the things you can't forget that
history puts a saint in every dream
Well she said she'd stick around
until the bandages came off
but these mamas boys just didn't know when to quit
and Matilda asks the sailors are those dreams
or are those prayers
so just close your eyes, son
and this won't hurt a bit
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
that you love
And it's Time Time Time
Well, things are pretty lousy for a calendar girl
the boys just dive right off the cars
and splash into the street
and when she's on a roll she pulls a razor
from her boot and a thousand
pigeons fall around her feet
so put a candle in the window
and a kiss upon his lips
till the dish outside the window fills with rain
just like a stranger with the weeds in your heart
and pay the fiddler off till I come back again
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
And it's Time Time Time
that you love
And it's Time Time Time

amor


Os enamorados interrogam-se continuamente acerca do que estão a pensar. "Em que pensas?" é uma pergunta espontânea do enamorado, que, no fundo, quer dizer "pensas em mim?" Mas não basta um sim, com essa pergunta quer saber do outro, da sua vida, dos seus pensamentos mais recôndidos, quer a sua total transparência em toda a sua riqueza e concrição, para poder aí inserir-se como objecto autêntico de amor, mas também como intérprete, consolação, guia. Não basta por isso que o outro responda "em ti" deve também indicar a via real, concreta, individual, daquele percurso. O "em ti" é sempre o ponto de partida e o de chegada, mas através da riqueza da concrição real, que é transfigurada e transubstanciada. Eis uma outra palavra religiosa: mudança de substância. O mesmo facto, até agora banal ou mesmo insignificante, uma vez dito e contado, aceite e inserido no discurso de amor, sai transfigurado, dotado de valor, o mesmo acontecendo a um defeito, uma fraqueza, um sofrimento, uma doença. O enamorado ama também as feridas da amada, os órgãos internos do seu corpo (o coração, o fígado, os pulmões) e os órgãos internos da sua alma (a infância, os sentimentos para com a mãe ou o pai, o amor por uma boneca). E porque o enamoramento é também resistir ao amor, afastar-se, querer-se separar, também este "não querer" deve ser dito, confessado, superado e absolvido.

"Enamoramento e Amor" - Francesco Alberoni, bertrand editora

lullaby



Cross over and turn
Feel the spot don't let it burn
We all want we all yearn
Be soft don't be stern
Lullaby
Was not supposed to make you cry
I sang the words I meant
I sang.

enamoramento

O estado  nascente é a revelação do ser que diz sim. Não há motivo algum para que diga sim, garantia alguma, e todavia fá-lo. O enamoramento é o abrir-se a uma existência diferente sem que nada garanta que seja realizável, é um canto altíssimo ao que nunca se está certo de ter resposta. A sua grandeza é desesperadamente humana porque oferece momentos de felicidade e de eternidade, cria um desejo ardente, mas não pode dar certezas.

"Enamoramento e Amor" - Francesco Alberoni, bertrand editora

hambúrgueres com ovo

Camarada Van Zeller, os aranhiços da opinião andam muito encrespados com o nosso amigo hamburguês. Não se entende porquê, afinal o bom samaritano limitou-se a reiterar uma estafada banalidade. Está cartesianamente provada a capacidade de resistência do material luso. Aguentámos cinquenta anos de miserável ditadura, mais trinta anos de consulado cavaquista, aguentamos todo o tipo de vigaristas, ladrões, assassinos e nem pipilamos, aguentamos o BPN com passeios matinais, mais facilmente atiramos ovos podres à fronha de um psicólogo metido em assuntos de bola do que arremessamos uma reprodução do Cristo Rei contra as fuças de um qualquer Berlusconi português, nós aguentamos, aguentamos tudo, até nos aguentamos a nós próprios, tão alegres que andamos e distraídos a imaginar o disfarce deste ano e a discoteca ou o bar onde vamos alegremente expiar as nossas virtudes, porque pecados já não temos nenhuns, somos uma alegria de viver, convencidos que vamos indo de tanto aguentar as portas fechadas da Suíça, a torneira avariada da Europa, a panela de pressão do Banco Alimentar, nós aguentamos tudo, é sabido, foi estudado, está provado, aguentamos o Relvas no Governo e as promoções dos bons funcionários da maior fraude fiscal de sempre no país, aguentamos os sacos azuis das forças armadas, uma vara de porcos à solta na auto-estrada e os erros do Ministério da Educação, aguentamos o cheiro da latrina e ainda que denunciemos a sua insuportabilidade nós apertamos o nariz com uma mão e tapamos os olhos com a outra, dançamos a coreografia do Gangnam Style, pousamos muito alegres e inclinados para a fotografia, acabamos a noite a arrotar ao ovo dos hambúrgueres e acordamos de manhã a peidar ulrichs, nós aguentamos tudo meu Deus, até a tua insistente ausência, benzemo-nos envergonhadamente, matamos a sede com água benta, cuspimos para o chão, coçamos as virilhas, acendemos um cigarro, vamos andando enquanto houver estrada para andarcom a cabeça entre as orelhas porque para mais ela não serve senão para os abanos encontrarem pouso e o chapéu aterro, nós aguentamos, aguentamos tudo, aguentamos os intermináveis incentivos à emigração, os lucros do BES e do BPI, porque não só somos o melhor povo do mundo como somos muito civilizados, civilizadíssimos, aguardamos pelo nosso amor na cama e ficamos alegres e curvados e rendidos perante o seu regresso, nós aguentamos a solidão, a distância, a tristeza e dela fazemos melancolia e da melancolia sacamos elegias e com elas produzimos textos muito resilientes que depois publicamos no weblog, no facebook, no caralho que nos foda a todos enquanto aguardamos que passe mais uma noite e mais um dia comece com todos os funcionários do BPI e do BES devidamente fardados, eles com fatos cinzentos, elas já sem os decotes da noite passada, todos muito hipócritas e lavados e perfumados, aguentamos e até damos uma esmolinha ao indigente, coitado, porque ninguém nos livra de virmos a ser como ele, podem acontecer coisas, a vida é uma incerteza, certo seja que aconteça o que acontecer cá estamos nós para aguentar, porque nós aguentamos até o aquecimento global, a seca, as tempestades, as intempéries, as ventanias e os alertas vermelhos, aguentamos 72 anos de merda contra 27 anos de excessos, e perguntamo-nos, afinal, por que aguentamos nós? e a resposta é sempre a mesma, tão breve e estúpida e desonesta que até chateia, respondemos que é pelos outros, pelos filhos, pela família, pelos pais, pelos irmãos, pelos primos, porque também nós somos muito amigos dos nossos amigos, só que não fazemos disso alarde, pelo menos com saldos e deves e haveres, porque o nosso livro de contas não tem linhas, está vazio com os versos dos poemas, também eles vazios, porque nós aguentamos, mas a poesia não, a poesia morreu e nós estamos vivos a aguentar com a garantia de que o TGV arrancará em breve e em breve poderemos metermo-nos todos lá fora muito mais rapidamente, tão rapidamente que nem daremos por isso, e então estaremos em Madrid como quem está em Lisboa e em Lisboa como quem foi a Paris, com uma simples diferença, aguentamos melhor do que todos esses canastrões da Europa civilizada, da qual não fazemos parte só por mero azar, porque o FMI bem nos quer maquilhar de modo a que nos misturemos uns com os outros sem darmos pelas diferenças, há quem se esforce, quem se esforce tanto, foda-se, para que sejamos todos prósperos e felizes e abundantes e nós aqui, foda-se, nós aqui a debitar angústias quando deveríamos era ter vergonha, porque a esta hora, a esta hora camarada Van Zeller, meio mundo já se levantou do sono não dormido para mais um dia de jorna. Ninguém percebe, portanto, a ofensa. O hamburguês constatou uma banalidade. Talvez custe sermos assim confrontados com a AXIOMÁTICA verdade da nossa própria miséria, tão superficialmente que vamos aguentando tudo isto e muito mais.

aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/

bom dia

Dizer que o arrependimento é inútil porque não se pode mudar o que foi feito é uma inutilidade e um contra-senso.
Manuel Zacarias Segura Viola arrepende-se de muitas coisas na vida, do que o coração de Zacarias não se arrepende é de ser leal às pessoas que ama e admira.

05/02/2013

o esclarecimento


Fernando Ulrich explicou-se à canzoada e logo saltou das pedras, com a inelutabilidade do hábito, uma legião de gnomos pronta a “contextualizar” o banqueiro. Que era “uma verificação da realidade”. Que Ulrich se limitou, em “puro bom senso”, a discretear sobre o talento humano “para aguentar o sofrimento”. Enfim, que o homem “tinha razão”.
E tinha.
Não nos é difícil supor que Fernando Ulrich “aguentaria” passar noites ao relento a beber água de um charco e a vasculhar lixo doméstico mesmo que um colega de infortúnio lhe partisse a cremalheira. Se contraísse tuberculose, ou febre da carraça, “aguentaria” entre meses e anos de sã indiferença liberal. Se por outro lado fosse garroteado, esquartejado ou guilhotinado pelo povo amável a que dirige as suas prédicas talvez o esperassem alguns minutos de estrebuchamento — mas o Homem, já diziam os árabes, está tão próximo da morte como a camisa do corpo, e também isso é “aguentar”. Estamos portanto de acordo quanto ao alcance prático da palavra.
Já o alcance político merece outro tipo de interlocutores. Escrevo “interlocutores” em vez de “análise”, “crítica” ou “meditação”, porque me parece infrutuoso maçarmos a direita portuguesa com os abalos da nossa revolta moral.
A direita é aquilo, e acabou-se a conversa. Com Isabel Jonet ou Fernando Ulrich, com punhos de renda ou moca ribatejana à ilharga será sempre uma agremiação arcaica de senhores feudais e criadagem servil disposta a atravessar-se pela bem-aventurança dos “meninos”. A única razão que conhece é a força, o único diálogo que trava é com os seus pares, a única ideologia que respeita é o esclavagismo.
Não está ao nosso alcance converter Ulrich, ou envergonhar Ulrich, apenas escorraçá-lo.
Luis M. Jorge

aqui: http://declinioqueda.wordpress.com/2013/02/03/o-esclarecimento/

o mundo

O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspensa nas nuvens ou escondida nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu,ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, se um dedo grosso se aproxima da roda balanceira, se vai roçar, mesmo de leve, a mola de cabelo, ansiosa como um coração.

José Saramago - Levantado do Chão

as folhas


Lá fora, as folhas caiem e o vento leva-as,
os carros passam e algumas pessoas também, poucos, poucas,
que a hora é tardia e o frio demorado.
Tanto brilham as estrelas como cai a chuva, oblíqua ou direita é igual,
num jogo intermitente de casualidades temporais.
Uma senhora de muitas rugas, vem à varanda tirar os lençóis,
não vá a obliquidade inclinar-se e pregar-lhe uma partida.
Na fria noite fria, os homens do lixo fazem o seu trabalho,
vazando caixotes e levando toda a imundice que dejectamos,
menos a maldade,
a mesquinhez,
a crueldade,
a tacanhez,
a angústia,
a amargura,
a tristeza,
a mágoa ou a leveza dos sonos dos que nada podem ou sabem.
As folhas, indiferentes, seguem a sua viagem…

E eu, eu estou aqui à janela, detido em mim próprio,
fumando um cigarro que não aprecio,
a olhar, olhando o que não vejo na luz fria da escuridão.
Podia ser homem do lixo e levar toda a sujidade.
Podia ser um padeiro e preparar o pão do dia que nasce.
Podia conduzir um autocarro e palmilhar estradas.
Podia ser corredor e galgar etapas de divagações e erros.
Podia recomeçar onde parei, mas não sei onde é a paragem.
Assim, estou aqui, à janela, em meio de quem sou.

Tão pouco de mim, inquinado na esquina da indefinição,
de paciência, limites e vontades resignadas,
deslumbrando-me com o passar de uma vida que não vivo.
Esta noite sou só mais uma metáfora,
tolerada por uma liberdade que prevejo mas não atinjo,
que abarco mas não reivindico.
Apenas mais um verso solto e desconexo,
que tenta segurar uma encruzilhada de contradições.
Até quando? Tão pouco de mim, preso em nervos que não tenho.

Procura-me, estou aqui, oculto mas não escondido,
encontra-me, descobre-me, confronta-me, cumpre-me.
Faz a tua representação do espectáculo mal encenado que és,
anuncia-te e agarra-me, aperta-me, empurra-me, bate-me.
Olha-me nos olhos com os teus olhos bem abertos,
e conta-me tudo o que sabes que eu preciso e quero saber.
As evidências incertas que me toldam e cegam,
as leis que fazes no tempo que precisas.
O tempo que as folhas levam e que com o tempo voltam.

vontades



E uma vontade de rir
nasce do fundo do ser
e uma vontade de ir
correr o mundo e partir
a vida é sempre a perder

na rua do amor


WOODY ALLEN ÀS SUAS EX-MULHERES

Se quiserem saber o que acontece na rua do amor,
entrem pela porta da cútis,
apanhem as vias de circulação interna,
vão de boleia com as sinapses,
montadas num glóbulo vermelho,
sigam pelos nervos, pelas veias,
penetrem as artérias,
contornem os obstáculos.
A rua do amor está no centro do coração,
uma casa com um jardim que pulsa
à razão de um batimento sem pulso.
Lá chegados, trememos.
Não de frio, não de medo.
Talvez da ressaca que a dor deixa por herança
quando resolvemos fechar as cortinas do sonho.

Henrique Manuel Bento Fialho
A Dança das Feridas, Edição de Autor, Lisboa, Janeiro de 2011, p. 98.

turbilhão



Longe de tudo o que fui
liberto as minhas mãos
ao largo mais ao largo
longe deste turbilhão

pilha gasta (não ler em castelhano)

Hoje lembrei-me deste texto n--coisas.blogspot.pt/2010/06/cabecadas, por causa de um dia bastante proveitoso mas extenuante de reuniões, duas de manhã mais três de tarde, sempre sobre o mesmo assunto mas com interlocutores diferentes. O problema não foram as horas de vai e vem, nem tão pouco a resolução, que passa por um simples sim ou não, o problema é chegar ao fim do dia com a sensação de que é necessário um esforço enorme para atingir o essencial, parece que anda tudo alheado, e o pior é que quando se consegue, finalmente, a atenção necessária, as pessoas começam a dar sugestões de coisas que são, naturalmente, inerentes ao projecto apresentado ou, pior ainda, já tinham sido faladas quando estavam ainda em estado de alheamento (ironicamente as ideias e motivações passam a ser deles). Claro que o que podia ser simples e objectivo acaba por se tornar uma batalha, com dramas pessoais à mistura, onde a realidade se confunde com a ficção, onde o pragmatismo se perde numa qualquer fantasia de uma África Colorida, (cabecadas) talvez tirada de umas fotos de uns amigos do facebook. Não me lembro de há 15/20 anos ser assim, mas como "Viver só é apodrecer", (cabecadas) apesar de esgotado da ginástica mental tudo correu pelo melhor e mais reuniões virão.
Como se não bastasse, no fim do dia, um simpático senhor de idade psicólogo e professor de filosofia, foi ao treino do Miguel fazer uma sessão para melhorar os índices motivacionais (acho que foi assim que me explicaram), parece que o senhor saiu muito contente com o meu puto, em 20 miúdos foi o único que sabia quem é Shakespeare, Miguel Ângelo e um escritor qualquer que não me lembro do nome, ainda por cima sendo o melhor marcador da equipa. Porreiro pá, então ensina-o lá a interessar-se e tirar boas notas no raio do ensino e escolas que temos, que eu já tenho a pilha gasta.

31/01/2013

bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola tem um coração do tamanho do mundo, o problema é o buraco do ozono.

29/01/2013

out to get you




I'm so alone tonight,
my bed feels larger than when I was small,
lost in memories,
lost in all the sheets and old pillows,
I'm so alone tonight,
miss you more than I could let you know,
miss the outline of your back,
miss you breathing down my neck,
oh, they're all out to get you,
once again, they're all out to get you,
once again..
Insecure, whatcha gonna do?
feel so small they could step on you,
called you up, answering machine
when the human touch is what I need, what I need
is you. I need you.
looked in the mirror,
I don't know who I am anymore
the face is familiar but the eyes,
the eyes give it all away..
oh, they're all out to get you,
once again, they're all out to get you,
once again..
here they come again, here they come again, here they come
again.. they're all out to get you, once again
they're all out to get you.. once again

dói-dói

Quando um homem se queixa, alguma coisa lhe dói.

José Saramago - Levantado do Chão

bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola sabe que a vida é feita de encruzilhadas e que, algumas vezes, falta a coragem para escolher um caminho. Sabendo à partida que todos estão esburacados e no fim têm a mesma recompensa, resta ao coração de Zacarias virar-se e apreciar os tombos da viagem.

28/01/2013

esquizofrenia colectiva

Grandes notícias de ontem, as 20 mil embalagens de antidepressivos vendidas por dia e o acidente de autocarro numa qualquer estrada de Portugal. Não parecendo relacionadas, são mais do que superficialmente se possa pensar. Nos últimos anos, principalmente desde o aparecimento dos canais de televisão privados, o paradoxo entre a cultura big-brotheriana/morangos com açucar, redes sociais e afins e a exploração mediática dos acidentes das crianças que morreram nos aquaparques, de entre-os-rios ou o de ontem por exemplo, tudo isto aliado ao paradoxo ainda maior, porque diário, da ficção do crédito e da realidade do pagamento, e se a isto tudo se juntar essa fantasia pseudo-pós-moderno-auto-motivadora de afirmação da personalidade e do ego que é o facebook, através de uma exposição pública da vida privada, faz com vivamos numa sociedade no mínimo esquizofrenoide.
Alheado das notícias, uma amiga perguntava-me se não tinha pena, como essa amiga costuma dizer, penas têm as galinhas, disse-lhe que lamentava claro, mas que me faz impressão e até nojo uma sociedade onde um simples acidente se torna um assunto mediático desta envergadura e que, no fundo, esta mediatização acaba por ser uma falta de respeito pela tragédia individual e única de cada pessoa envolvida no respectivo acidente, isto para já não falar da imediata procura "justicialeira" de responsáveis.
Como é possível não andarem todos a dar nos antidepressivos, numa sociedade fantástico/fantasiosa e imatura como esta, que depois, com toda a naturalidade da força da realidade, se revela em todo o seu esplendor de dificuldades, acidentes, catástrofes.
Como diria o outro: "É a vida pá." E a vida não são só fotografias bonitas e frases feitas do facebook.

i was born to love no one

No “libreto” que acompanha esta edição da obra integral de Nick Drake (1948-1974), lê-se a páginas tantas que a música do songwriter britânico é de tal modo bela que nos faz sentir vergonha da fealdade do mundo. Não é exagero. A música de Drake reflecte a estatura do seu autor, olha-nos do alto de uma solidão cuja sensibilidade e fragilidade nada têm que ver com a arrogância dos mensageiros da verdade. As canções de Nick Drake transpiram dúvida, caminham lado a lado com a insegurança e a incerteza dos homens que se perdem numa floresta.

hmbf aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2013/01/100-albuns-assustadores-80.html





I was born to love no one.
No one to love me.
Only the wind in the long green grass,
The frost in a broken tree.
I was made to love magic.
All its wonder to know,
But you all lost that magic,
Many many years ago.

e aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2013/01/i-was-born-to-sail-away-into-land-of.html

lento

Lento,
tento ultrapassar
Em mim aquilo que sou
Como a brisa que passou
E me disse a sussurrar
A natureza,
que são as coisas todas
Leva o tempo que o tempo faz
Assim,
perco e ganho a paz
Como o cair perene das folhas

Lento,
tento ignorar
Em mim o sono que despertou
Como o sonho que acordou
E me disse a sussurrar
A vida,
que é tudo o que temos
Leva o tempo e o tempo traz
Assim,
perco e ganho a paz
Como tudo o que ganhamos e perdemos

Lento,
tento aproximar
Em mim a alma que sou
Como o espírito que voou
E me disse a sussurrar
O amor,
que são as coisas que fazemos
É todo o tempo que o faz
Assim,
ganho sempre a paz
Como a eternidade que queremos

fiesta




bom dia

Quando faz a barba, Manuel Zacarias Segura Viola gosta de brincar com a espuma e rir-se do ridículo que figura na imagem que o espelho representa, num saudável destrambelhamento da efemeridade de todas as coisas, da espuma, dos pelos e de Zacarias himself. E o coração de Manuel Zacarias Segura Viola sempre gostou de gente defeituosa e destrambelhada, desde que reconheçam a ironia desta merda toda e, sobretudo, saibam rir-se de si próprios.

27/01/2013

hurt


tanta paisagem

O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.

... Tanta paisagem. Um homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer, chegada a hora.

José Saramago - Levantado do Chão